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Sexta-feira, Dezembro 24, 2004

DIA DE VERÃO - Parte II



Olhei o display do celular: Trabalho??????? Como assim?????
Atendi. Era meu diretor: - Sabe o que que é?...
Não prestei atenção em mais nada... Disse que estava perto e voltei. O melhor foi a cara que ele fez quando se deparou com meu estado. Soltei um tá chovendo um pouco sorridente pra descontrair, pedi pra desligar o ar-condicionado e liguei o computador. Resolvido o problema e como a chuva não dava descanso, meu diretor perguntou se eu queria uma carona. Bom, ele ia pro Méier, via linha amarela, nada a ver com meu caminho e se meu carro não podia ultrapassar a lama, o dele também não.
- Pode me deixar na passarela?
- Claro me mostra onde é.
Por alguns minutos achei que estava tudo resolvido. Até chegar na passarela e encontrar a mesma Bethânia (agora debaixo de um guarda-chuva com mais três caronistas) que quando me viu exclamou: - É... Hoje tá complicado, nêga!
Vem chegando um 750 lotadérrimo. Quando o motorista viu a quantidade de gente apinhada no ponto, acelerou e sumiu na tempestade. Senti que o motorista do 748 ia fazer o mesmo, mas alguém lá dentro puxou a cordinha pra descer e ele teve que parar.
- Vambora!
Ouvi, e ela já estava aboletada com mais uma penca de gente escorrendo pela porta. E o ônibus partiu assim mesmo.
Atravessei para um larguinho ao lado e apertei o send de novo:
- Olha só: eu tô tentando chegar em casa há mais de uma hora, mas não tô conseguindo. Estou sem guarda-chuva. Vou acabar pegando uma pneumonia! - apelei.
- Você vai estar mais segura em uma van do que num corsa! - foi a resposta.
- ACONTECE QUE NÃO TEM VAN NENHUMA, PÔRRA! - berrei e fechei o flip na cara dele.
Àquela altura do campeonato, parecia que eu tinha acabado de dar um mergulho na lagoa. Reparei que todas as pessoas estavam olhando pra mim. As que passavam, as que esperavam condução e as que, alheias ao temporal, saboreavam um churrasquinho com skol na barraquinha de lona azul. Sentei num banco de concreto empoçado e chorei compulsivamente. Um ser totalmente desconhecido chegou perto e perguntou o que estava acontecendo. Chorei mais ainda: - EU QUERO IR PRA MINHA CASA, EU SÓ QUERO CHEGAR EM CASA, DAR UM BEIJO NA MINHA FILHA E DORMIR. SÓ ISSO. Mas parece que eu não vou conseguir isso nunca mais.
É, ás vezes eu sou bem dramática mesmo. Mas não sei se por pura coincidência ou por Piedade Divina, começou a estiar. Esperei...
Ainda possuída de raiva, olhei mais uma vez para o celular e resolvi dar mais uma chance ao cara: - A chuva diminuiu, a água tá baixando, eu tô praticamente nua e morrendo de frio. Será que não dá...
- Tá, tá, tá, tô indo!
Não consegui mais emitir um som. Cheguei em casa, dei um beijo molhado na Zazá (que dormia linda e tranqüilamente), tirei a roupa, enrolei uma toalha na cabeça, me joguei na cama e apaguei.
Preciso comprar uma moto.
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Sexta-feira, Dezembro 10, 2004

DIA DE VERÃO - Parte I



Sexta-feira, o verão batendo na porta e me fazendo lembrar de um dia normal de trabalho acontecido no mesmo período do ano passado.
Como de costume, antes de começar a me arrumar, dei uma espiada básica pela janela para ver como estava o tempo.
Um lindo dia de sol. Na verdade, um calor do inferno, eu pensei...
Bom, hoje é sexta, depois do almoço o todo-poderoso estará rumando para a Costa Verde, não há problema algum em ir vestida estilo sábado de shopping: calça brim corsário branca com bordado na bainha e bata de fazenda fininha estampada em tons pastéis; sandália anabella e bolsa-sacola brancas.
Saí me sentindo a gostosa de óculos escuros, e confesso que até achei graça quando o cara da towner laranjinha do GÁS FLUSÃO deu uma buzinada.
Lá pelas 15h, tive que começar a disfarçar o frio que já estava sentindo por causa do ar-condicionado, mas não dei o braço a torcer, pois todo mundo já tinha comentado aquele visual, acostumados que estavam a me ver todo dia de terninho preto, ou cinza, ou aquelas roupas escuras (tons sóbrios, como o alto escalão prefere chamar) que combinam perfeitamente com o perfil da empresa.
Às 18h escutei um estrondo que me arrepiou do dedão do meu pé chato ao último fio do meu cabelo ralo. Não podia ser verdade. Ignorei. Mas não por muito tempo. Ao chegar na portaria, no horário sagrado da minha saída, me deparei com uma cena digna de qualquer filme-catástrofe norte-americano, e me lembrei da Vó Yola, ao se despedir de mim de manhã: - Ta tão quente que é capaz de cair um pé dágua mais tarde!
Mas é claro que não dei atenção, eu tava L-I-N-D-A, não podia estragar o modelito carregando um guarda-chuva!
Corri com a bolsa na cabeça - e nesse momento eu já me sentia uma jeca - em direção ao ponto de ônibus que agora parecia estar a 10km de distância. Somei-me toda molhada a todas as 273 pessoas amontoadas embaixo do teto de vidro. Avistei um rosto conhecido. Uma amiga daquelas de condução que você encontra na ida e volta diária do trabalho.
- Tô aqui há mais de 2 horas... Não passou nada...
Bom, vou ter que dar o braço a torcer, ligar pro meu marido (que vive perguntando porque ainda não tirei minha carteira de habilitação) e pedir para ele vir me buscar.
- Cara, tá o maior temporal! Pô é melhor você esperar por aí... Aqui tá tudo inundado, tá complicado até pra chegar na garagem, blá, blá, blá... - Desliguei.
Bethânia voltou a conversa: - Acho que vou pegar qualquer coisa até a passarela. De lá tem mais opção.
Boa idéia, eu pensei. Tocou meu celular, meu peito se encheu de esperança, o cara se arrependeu de me deixar aqui, diante do fim do mundo. Mas não era...

continua...
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Quarta-feira, Novembro 10, 2004

Lei de Murphy



Alguns mistérios que nos cercam serão sempre indecifráveis.
De uma forma muito curiosa, acordei com uma buzina que lembra aquela de bicicleta de circo, seguida de um URRO abafado pela janela fechada e o barulho do ar-condicionado: - Ó-u-gáás!
Insatisfeito pela falta de resposta - só se ouvia o latido dos cães - o indivíduo tocou a campainha e meteu o cabeção na frente do olho-mágico, o que fez os cães ficarem ainda mais enlouquecidos. De pijama de moletom, os cabelos desgrenhados, a cara inchada e os olhos ainda semi-cerrados, me arrastei até o portão e gritei: - Não, obrigada!
Em vão, porque nesse momento a Leka (minha vira-weiller ou rott-lata, como quiserem) pirou de vez e esganiçou seu latido com toda a vontade! A campainha tocou novamente: - Vai gás aí, madame? Promoção, 35 o bujão!
Achei que a Leka ia enfartar. Abri uma frechinhazinha do portão para que não houvesse a menor possibilidade de ele ver mais do que ¼ do meu rosto e gritar, assustando ainda mais os cães, e respondi novamente: - Não, obrigada!
Voltei a minha rotina matinal.
Onde moro, não há gás natural encanado, de modo que temos que ter pelo menos três bujões em casa. Um para o fogão, um para o aquecedor do chuveiro e um de estepe, no caso de um dos outros dois acabar. Como não costumamos cozinhar, esquecemos do estepe, e quando acaba o bujão do aquecedor, trocamos pelo do fogão e vice-versa, até comprarmos outro. Fazendo as contas...
Na nossa casa, moramos eu, meu marido, e minha filha. Temos um chuveiro ligado ao aquecedor. Pela Lei de Probabilidades, são 33,333...% de chance para cada um de ter o seu banho interrompido. Considerando o fato da minha sogra estar passando esse mês na minha casa, as chances são de 25%.
Mas pela Lei de Murphy - que considera sérios agravantes fatos como eu ter uma verdadeira alergia a banho frio, e a Zazá e o Saulo acharem que um banho morno está pelando - as chances do gás acabar comigo sobem para 99,9%.
E claro que aconteceu! E lógico que ele (o gás) não poderia esperar eu tirar o sabão nem o xampu.
Encharcada e ensaboada, enrolada na toalha, sentindo um frio surreal e deixando um rastro de água e espuma por toda a casa, lá fui eu até a área, trocar as saídas de bujão. Rezei para não esbarrar na minha sogra no caminho e ter que responder ao óbvio: - Ué, minha filha, o que foi que aconteceu com você?
Oito minutos depois estava de volta embaixo do chuveiro e, ainda no banho, fazendo as contas dessa matemática, para poder postar aqui, e mais tantas outras, para saber quantas vezes ainda terei que passar por isso!
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Sexta-feira, Outubro 22, 2004

De novo...



Pode parecer que sou repetitiva ou que a minha vida é só a monotonia do caminho casa/trabalho/casa, mas a verdade é que, realmente, nesses 15 minutos (tempo médio do percurso, em condições normais) acontecem as situações mais pitorescas que, de certa forma, caracterizam o lugar onde eu moro: Entre condomínios nababescos (com a licença de Danilo Martins), comunidades (leia-se favelas) com esgoto a céu aberto e bichos de todas as espécies - de cavalos, porcos, coelhos, tartarugas e galinhas até pacas, gambás, gaviões, garças, cobras, caranguejos e sagüis.
Hoje, definitivamente presenciei a cena mais sem noção Joselito, desde que comecei a utilizar a única linha de ônibus do percurso. Assim que subi, percebi um sujeito com físico etíope, vestido de pai-de-santo com um boné. Sentado na janela, as unhas iguais as do Freddy Krugger ou do Edward... Água, não devia ver faz tempo.
Daí que o desprovido, sentado na segunda fileira de um modelo ultrapassado cuja entrada e saída se dava pela mesma porta da frente, era portador de um imenso isopor forrado por cartazes de picolés, envoltos em fita cor-de-rosa-barbie, com uma plaquinha dos Dez Mandamentos impressa em plástico e alto relevo, cuidadosamente aplicada no centro da tampa do mesmo. Sem nenhuma cerimônia, ele repousou o trambolho no meio do corredor, atrapalhando o ir e vir de passageiros e bloqueando os dois assentos da terceira fileira.
Pela Lei de Muphy, lógico que um deles era o único lugar vago do veículo e com minha agilidade de ninja e depois de alguns movimentos estratégicos, consegui me sentar.
O mais engraçado estava por vir... Foi começando a entrar mais gente, e a cada ser que se aproximava, o maluco urrava:
- Ó-a-caxa, êeem!
- Cuidado-cuã-caxa-aí, ó!
- Ó, tem-uã-caxa-aí!

Como se fosse realmente possível não ver aquele tijolão multicolorido! E assim, com as pessoas demonstrando suas mais criativas acrobacias para entrar e sair do micro-ônibus, foi o passeio até o Downtown, onde finalmente, vagaram alguns lugares e uma moça simpática e provida de alguma razão, mas também com a paciência esgotada, empurrou para dentro de uma fileira, o elefante inanimado do caboclo que, tomou um susto enorme ao olhar para traz e não avistar sua bagagem. Como se houvesse alguma possibilidade de alguém tê-lo carregado embora sem ele perceber. Bem que eu queria...
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Terça-feira, Outubro 19, 2004

Estou desprovida do meu sarcasmo natural e estou triste de verdade porque perdi minha cachorra Luna, uma Dog que foi sacrificada por conta de um câncer em estágio terminal.
Mas para não deixar o blog sem atualização, vou deixar aqui uma homenagem à ela e a todos os cães. Quem tem, sabe do que estou falando.


Porque ter um Cão?



Para, ao chegar em casa, ser saudado por alguém que o ama e crê não poder viver sem você.
Para que ele o ensine a acreditar nos seus semelhantes.
Para você aprender a viver sem egoísmo e ser responsável por alguém que depende de você e nunca reclama.
Para que não se esqueça de que na vida também é preciso brincar, como ele faz.
Para ter um alarme vivo e um policial que nunca dorme.
Porque o cão é o único amor verdadeiro que o dinheiro pode comprar.

Will Judy
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Segunda-feira, Outubro 11, 2004

Uma manhã de uma mulher de 30...



Cara, a minha manhã realmente não foi nada legal... Primeiro porque ninguém merece ter que trabalhar hoje, entre um domingo e um feriado, segundo porque acho que meus neurônios só resolveram funcionar depois do meio-dia.
Apesar de ter ido dormir ontem já pensando no programa de hoje à noite - uns amigos vão tocar no Downtown - acordei tranqüilamente, no horário, tudo bonitinho...
Aí começou...
Esqueci de tomar meu remédio em jejum e inverti a ordem da minha rotina matinal. Foi o suficiente... Minha manhã pirou, fiz tudo ao contrário, mas só me dei conta mesmo da situação quando, secando meu cabelo (a escova normal de todos os dias), comecei a achar meu cabelo oleoso... Que estranho... Depois do banho... Que estranho... CARACA!!!!! Eu não passei xampu!!!!! EU NÃO PASSEI XAMPU!!!!! COMO ASSIM, EU ESQUECI DE PASSAR O MALDITO XAMPU???? CARACA!!!!! Olhei o relógio e pensei: ferrou! Na verdade eu pensei FUD...! mas fica feio pra CARAL...!
Quem lê pensa até que eu não falo palavrão!
Botei meu roupão por cima do vestido (eu estava realmente pronta, só faltava o cabelo) e lá fui eu pro tanque, porque eu não ia tirar a roupa toda, entrar no banho e me secar de novo! E eu só pensava: Porque hoje? Porque hoje, que meu cabelo tem ficar pelo menos apresentável, até a noite, eu esqueci de passar a PÔRRA DO XAMPU? Parece que é normal, né? Não, não é! Confesso que já esqueci de passar o creme, mas DEPOIS de passar a DROGA DO XAMPU!
Sequei meu cabelo todo de novo, - 5 prás 10 - agora, de qualquer maneira, só para ele ficar seco - 10 horas, eu devia estar lá - catei minhas coisas e saí dando adeusinho pra Vovó - 10 e 5 - que falou alguma coisa, mas não podia voltar pra ouvir... Ela deve ter dito: - Tá indo tarde hoje, né, minha filha?...
Bati o portão! Uma ventania assoladora no Itanhangá, e com muita, muita sorte não demora a passar a van... Cheia, caindo aos pedaços, com as janelas todas abertas (as borrachas arrebentadas não permitiam o fechamento dos vidros) e meus cabelos esvoaçando, batendo e caindo na minha cara pra me lembrar o que, naquele momento, eu devia estar parecendo o Primo It, da Família Adams.
Mas, por mais incrível que possa parecer, ao sentar na minha mesa e ligar o computador, qual não foi a minha surpresa, quando a Dadá, figuríssima repara: - Nossa, como seu cabelo tá bonito hoje! O que foi que você fez?
Eu respondi: - Nada, o mesmo de sempre!
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Quarta-feira, Outubro 06, 2004

Dia-a-dia...

A vantagem (ou desvantagem) de se morar num bairro semi-rural no meio do Rio de Janeiro, é que todo mundo conhece todo mundo. Não assim, conheceeeeeer, mas de: oi, ´dia, e aí?, sabe? E isso inclui os cobradores e motoristas das vans e ônibus que circulam no local.
Outro dia, esperando uma condução que me deixasse na passarela da Barra, pára na minha frente (sem eu ter feito sinal algum) o ônibus que vai pro BarraShopping, o motorista abre a porta e me dá um bom dia! Eu, sem graça, ainda tive que explicar: - Não, é que eu tenho que passar noutro lugar antes de ir pro trabalho, hoje....
Num outro dia, cheguei 20 minutos atrasada no trabalho, porque o motorista (não o mesmo) simplesmente parou na pastelaria do Coreano e foi fazer uma boquinha. Eu e mais 3 bonecos esperando. Ele voltou, virou-se para trás e pediu desculpas, mas é que o patrão dele não dava horário para almoço, e se não fosse assim, ele passava fome, e blá, blá, blá.
Mas a pior de todas sem dúvida, foi, pouco antes de eu parar de fumar, na volta pra casa (e por um mero acaso eu estava de muito bom humor nesse dia), quando o ônibus parou e eu pisei no primeiro degrau (veja bem: ainda não entrei por completo no veículo), dei o meu tradicional: - Boa Noite! (só que desta vez acompanhado de um sorriso simpático)... Daí que o conhecido piloto noturno responde: - Nossa, esse foi o melhor boa noite que eu já recebi... Pena que veio junto com cheiro de cigarro!
Foi o fim!
Meu humor deu 1 giro de 180º : Não só eu exalava fumaça pelos poros como a criatura condutora se achava íntima a ponto de fazer um comentário desses!
As outras 3 pessoas que entravam atrás de mim ficaram sem graça.
Dei um sorriso amarelo (de nicotina) e fui para o fundo do ônibus, pra mais ninguém sentir o fedor.

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Segunda-feira, Outubro 04, 2004

O Trem-fantasma...



Para vocês entenderem o que é a minha volta pra casa...

Dia estressante, sem um minuto de trégua das 10h às 20h30...
Desço no elevador imaginando o banho quentinho que vou tomar e o berço onde vou cair. Ando apressadamente até o ponto do BarraSquare e aguardo...
Impossível perder uma van pro Rio das Pedras por distração. Você começa a escutar os berros do cobrador lá do BarraShopping:
- RIDAS PEDRA, RIDAS PEDRA, É-UM-E-CINQÜENTA-ACEITO-VALE-TEM-VAGA-SINTADO!
Você está se perguntando: mas alguém vai em pé??? Na van???
Cara, eu queria tirar uma foto um dia desses...
Faço sinal feliz, afinal vou sentada, - olha que bacana - e o motorista pára.
A pessoa simpática e desdentada vira-se pra mim: - Mas só no cafôfo, ta, bem?
Traduzindo:
1) Cafôfo: entre a cadeira do motorista e a primeira fileira de bancos da van, exatamente em cima da tampa do motor, joga-se um colchonete e cria-se, assim, de maneira mágica, mais quatro vagas no carro, isso porque eles te espremem pra valer...
2) Bem: sou eu!
Entro e penso que só quero chegar rápido em casa, só isso.
Antes mesmo da minha bunda começar a esquentar, senti aquele cheiro de espiga de milho cozida, sendo devorada pelo sujeito no último banco. Ele até sentou perto da janela coitado, mas não adiantou...
Mas ainda tinha alguma coisa errada com aquele cheiro... O milho não podia ter um cheiro tão artificial, não... Era um perfume mais doce que leite condensado, de uma mulher sentada na minha frente.
A van parou. Entrou um cara tão grande, que nenhuma lei da física vai conseguir explicar como ele coube lá dentro. E no cafôfo! Lógico, a essa altura eu estava tão torta, que quem olhasse poderia tranqüilamente achar que eu era contorcionista profissional. Só que o pior não foi isso. O pior é que parecia que o cara tinha passado o dia inteiro (talvez até a noite anterior também) na estiva do cais do porto!
Meu irmão, aquela mistura de cheiros não estava realmente fazendo bem, a moça de frente pra mim começou a ficar verde... Orei e fiz força pra não chorar. Não tinha nem como descer, com o Yeti mal-cheiroso e a banguela sentados entre mim e a porta.
Não sei se foram as orações mas o rapaz do milho, apesar de estar no último banco, foi o primeiro a descer. Já na Tijuquinha desceram o Yeti e a Rosa Almiscarada. E o rosto da moça verde começou a voltar ao normal. Pude curtir os últimos cinco minutos da minha viagem voltando a pensar no meu banho, agora escaldante, pra desinfetar.
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Sexta-feira, Outubro 01, 2004

Via Crucis



Acordei com aquele barulhinho irritante e um e outro chuá lá fora e torci para ainda estar sonhando. Encontro o Momba (meu cachorro) dentro do quarto, o que confirma: é, está chovendo...
Só isso já seria motivo suficiente preu voltar a dormir, mas meu gerente não ia ficar nada satisfeito.
Não pode existir castigo maior do que ter que atravessar de condução o percurso necessário para eu conseguir chegar ao trabalho debaixo de chuva. E no horário!
Explicando... Eu moro num lugar chamado Muzema que, junto com a Vila da Paz e a Tijuquinha, fica entre a Barra da Tijuca e Rio das Pedras (Jacarepaguá), mas a ECT classifica tudo de Itanhangá. Pelos nomes você pode imaginar tratar-se de um bairro quase rural. E é. E a infra-estrutura idem. Só para vocês terem uma noção, eu moro no único pedaço de 3 km do município do Rio que não tem cabo da NET. É, nada de GNT, Multishow, SporTV. Só antena. Daí que, quando chove, as vans ficam todas engarrafadas no lamaçal lá de RP, o que já atrasa a minha saída. Só que antes disso, fico eu, colada lá atrás no meu portão, torcendo o pescoço pra poder alcançar a vista na rua, pra não tomar um banho de poça. Quando aparece uma van saio fazendo sinal feito uma maluca, e essa cena se repete umas 4 vezes até eu ter a sorte de passar uma com vaga. Enfim, meu destino é a Barra, a parte Miami da Barra da Tijuca. Até chegar é uma tortura, porque, quando chove no Rio, parece que baixa uma diarréia mental nos motoristas e ninguém consegue dirigir. E não precisa ser um temporal, basta uma garoa, e o Rio pára!
Depois de inspirar todos os ácaros, vírus e bactérias de um veículo lotado, hermeticamente fechado e que nunca foi lavado, desço do lado oposto na avenida do prédio onde trabalho.
Constato, e quem já atravessou a pé a Avenida das Américas pode confirmar o que digo: na Barra, chove de baixo para cima! Não riam e não tentem abrir o guarda-chuva... ela vem do chão, junto com um vento capaz de levantar sua saia tubinho.
Finalmente entro na minha sala com os cabelos de Hermione Granger, 30 minutos depois do horário, com aquele sorriso amarelo. Mas tudo bem, sexta-feira não tem hora pra sair...
Bom fim de semana!
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Segunda-feira, Setembro 27, 2004

Semaninha pra esquecer...

Quarta-feira: resultado do papa-nicolau - baixas taxas de hormônio, meu mau-humor ultrapassando as raias daquilo que um ser humano pode suportar, e ainda ter que aplicar tubinhos!
Qunta-feira: até tarde no trabalho pra saber se vai rolar uma alterção em alguma coisa que tem que ser vista hoje-de-qualquer-maneira, mas que só será publicada semana que vem.
Sexta-feira: tô tão dura que não vai rolar o happy hour.
Fim de semana mergulhada nos freelas pra ver se consigo respirar no fim do mês. Fora todo aquele trabalho de Maria... lava roupa, estende roupa... cuida do cachorro. Ainda bem que minha filha já sabe pedir socorro por telefone.
Segunda-feira: primeira coisa que me lembro ouvir de manhã - Só 4 quilos???!!! Me dei conta... Estou no endócrino, e ele tá me falando que os 45 dias de fome que passei me fizeram bater o record do fiasco anfetamínico. Serei motivo de chacota assim que as meninas souberem.
Pra completar chego em casa e me deparo com a pia mais nojenta que uma casa pode apresentar. A Conceição não veio. NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!!!!!
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Quinta-feira, Setembro 23, 2004

Contando ninguém acredita...

Entrei no trem-fantasma (que a COOP RP teima em chamar de transporte alternativo - mas isso é assunto para um post exclusivo) já no dead-line para não chegar atrasada. Sentei no último assento vago, na última fileira, entre uma moça e um cara de shorts jeans desfiado colado, com a cara no vidro da janela. Por intuição, não olhei pra cara dele. Estava um silêncio sepulcral, coisa que raras vezes tive o prazer de desfrutar no caminho para o trabalho. Não foi preciso mais de 10 segundos pra minha viagem virar um tormento. Não bastasse o calor que o 1º dia da Primavera nos trouxe, o infeliz fashion, começou a se rebulir. Bem devagar. Depois começou a murmurar. Bem baixinho. Pensei: deve estar rezando... Tolinha!
Estava de óculos escuros, mas percebi que o maluco virou o rosto pra mim e fez um olhar de peixe-morto e continuou sua ladainha que graças a Deus não traduzi. Então ele esfregou a panturrilha dele na minha, AAARRRRRRRRRRRRRRRGGGGGGGGGGGGHHHH!
Fiquei chocada! O desgraçado era tarado! Ainda bem que escolhi uma calça comprida pra trabalhar.
Fui me afastando para o outro lado, mas já estava quase no colo da garota à minha direita. Foi quando o filho da puta resolveu passar a mão na própria coxa, mas as pontas nojentas dos seus dedos alisando a minha.
Afastei-me um pouco mais e joguei minha bolsa e minha sacola pro lado esquerdo, em cima da minha perna. Bom, daí minha cabecinha começou a viajar: Devo fazer um escândalo? E se ele desmentir? E se ele falar alguma grosseria que eu possa escutar? E se na hora d¿eu levantar ele resolvesse dar uma chuchada na minha bunda?
Cheguei. Nada mais aconteceu e eu consegui entrar quase inteira no escritório. Não fossem os 294 neurônios que eu deixei naquela van.
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